quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um longo congestionamento e o fim

Depois do fim, a menina entra no ônibus cansada, logo arruma onde sentar apesar das mais 20 e poucas pessoas que disputam um lugar com ela e começa a pensar...

'Talvez eu tenha me enganado e hoje não seja meu dia de azar. Talvez hoje seja apenas um dia, inclusive com momentos de sorte, acabou de vagar um lugar. Mas preciso registrar o que inicialmente me fez acreditar que era este um dia de azar.

Ia dizer que percebi, mas não é verdade, eu já tinha percebido. É que por não ser um tipo de perceção agradável quis postergar suas consequências. Bom, hoje o que podia ser uma percepção subjetiva particular materializou-se como se fosse um cartaz posto a 30 centimetros de distância do meu rosto e como se uma outra pessoa segurasse minha cabeça e abrisse forçosamente meus olhos. Alí estava eu, obrigada a ler a notícia desagradável que tratava exatamente de mim.

Ele jamais havia gostado de mim, era esta a notícia. Ele gostava das minhas blusas, costumava elogiá-las, da minha aparência e daquilo que eu representava, a forma contrária de como ele era visto. E, quem sabe, era disso que ele gostava, ele anunciando a todos displicentemente que habitava os pensamentos e, quem sabe, o coração da menina que agora sentia raiva.

Sou tola, está claro, e, embora tudo isto que passa agora por minha cabeça pareça uma grande advertência sobre o mundo e os amores, como a proteção que certas pessoas criam em relação à vida pode acabar nos machucando, não quero endurecer, criar em mim essa reserva e desconfiança que vejo nos outros. Remoer mágoas recentes é só uma tentativa, de relance meio incoerente, de sofrer menos. E com o tal do sofrimento vou aprendendo a conviver, porque sempre haverá o sono a quem uma hora terei que me entregar e daí virão sempre novos sonhos...'

Apesar do lirismo de seu último pensamento, ele apenas lhe parece amargo.

Pareceu então cansar-se de pensar. Isso de fazer longas viagens é como insônia, pensa o que não quer e o que não deve, o que lhe faz mal e deveria esquecer. Ao menos, neste caminho a paisagem consegue lhe roubar dos pensamentos, fazê-la, por fim, dormir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário