segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Des-caminho
Teoricamente já não há mais amor entre nós, resta apenas a camaradagem e algo que só sei explicar como uma cumplicidade e confiança que ainda não encontrei em outra pessoa. Na prática busco alguém, porque pelos caminhos que me mostrastes e levastes não há como seguir sozinho. Nunca antes tinha ido tão longe e tudo era muito certo e seguro. Um caminho revestido e bem sinalizado. Agora, aqui, nem é mais caminho; é uma floresta densa e eu preciso cortar os galhos. Muitas vezes escolho a direção errada, tenho me perdido constantemente. Para retomar o rumo e recuperar o prumo tento lembrar e seguir a direção por onde costumavas me levar. E é caminhando como se ainda fosses meu guia que me acalmo e que nem tudo parece estar perdido. Me guiam tuas palavras antigas, teu carinho e teu cuidado e o que mais quero é uma clareira para descansar.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Um longo congestionamento e o fim
Depois do fim, a menina entra no ônibus cansada, logo arruma onde sentar apesar das mais 20 e poucas pessoas que disputam um lugar com ela e começa a pensar...
'Talvez eu tenha me enganado e hoje não seja meu dia de azar. Talvez hoje seja apenas um dia, inclusive com momentos de sorte, acabou de vagar um lugar. Mas preciso registrar o que inicialmente me fez acreditar que era este um dia de azar.
Ia dizer que percebi, mas não é verdade, eu já tinha percebido. É que por não ser um tipo de perceção agradável quis postergar suas consequências. Bom, hoje o que podia ser uma percepção subjetiva particular materializou-se como se fosse um cartaz posto a 30 centimetros de distância do meu rosto e como se uma outra pessoa segurasse minha cabeça e abrisse forçosamente meus olhos. Alí estava eu, obrigada a ler a notícia desagradável que tratava exatamente de mim.
Ele jamais havia gostado de mim, era esta a notícia. Ele gostava das minhas blusas, costumava elogiá-las, da minha aparência e daquilo que eu representava, a forma contrária de como ele era visto. E, quem sabe, era disso que ele gostava, ele anunciando a todos displicentemente que habitava os pensamentos e, quem sabe, o coração da menina que agora sentia raiva.
Sou tola, está claro, e, embora tudo isto que passa agora por minha cabeça pareça uma grande advertência sobre o mundo e os amores, como a proteção que certas pessoas criam em relação à vida pode acabar nos machucando, não quero endurecer, criar em mim essa reserva e desconfiança que vejo nos outros. Remoer mágoas recentes é só uma tentativa, de relance meio incoerente, de sofrer menos. E com o tal do sofrimento vou aprendendo a conviver, porque sempre haverá o sono a quem uma hora terei que me entregar e daí virão sempre novos sonhos...'
Apesar do lirismo de seu último pensamento, ele apenas lhe parece amargo.
Pareceu então cansar-se de pensar. Isso de fazer longas viagens é como insônia, pensa o que não quer e o que não deve, o que lhe faz mal e deveria esquecer. Ao menos, neste caminho a paisagem consegue lhe roubar dos pensamentos, fazê-la, por fim, dormir.
'Talvez eu tenha me enganado e hoje não seja meu dia de azar. Talvez hoje seja apenas um dia, inclusive com momentos de sorte, acabou de vagar um lugar. Mas preciso registrar o que inicialmente me fez acreditar que era este um dia de azar.
Ia dizer que percebi, mas não é verdade, eu já tinha percebido. É que por não ser um tipo de perceção agradável quis postergar suas consequências. Bom, hoje o que podia ser uma percepção subjetiva particular materializou-se como se fosse um cartaz posto a 30 centimetros de distância do meu rosto e como se uma outra pessoa segurasse minha cabeça e abrisse forçosamente meus olhos. Alí estava eu, obrigada a ler a notícia desagradável que tratava exatamente de mim.
Ele jamais havia gostado de mim, era esta a notícia. Ele gostava das minhas blusas, costumava elogiá-las, da minha aparência e daquilo que eu representava, a forma contrária de como ele era visto. E, quem sabe, era disso que ele gostava, ele anunciando a todos displicentemente que habitava os pensamentos e, quem sabe, o coração da menina que agora sentia raiva.
Sou tola, está claro, e, embora tudo isto que passa agora por minha cabeça pareça uma grande advertência sobre o mundo e os amores, como a proteção que certas pessoas criam em relação à vida pode acabar nos machucando, não quero endurecer, criar em mim essa reserva e desconfiança que vejo nos outros. Remoer mágoas recentes é só uma tentativa, de relance meio incoerente, de sofrer menos. E com o tal do sofrimento vou aprendendo a conviver, porque sempre haverá o sono a quem uma hora terei que me entregar e daí virão sempre novos sonhos...'
Apesar do lirismo de seu último pensamento, ele apenas lhe parece amargo.
Pareceu então cansar-se de pensar. Isso de fazer longas viagens é como insônia, pensa o que não quer e o que não deve, o que lhe faz mal e deveria esquecer. Ao menos, neste caminho a paisagem consegue lhe roubar dos pensamentos, fazê-la, por fim, dormir.
Pertences e aspirações de uma passageira
Certo minha cara, tens um aluno que, seja lá por que motivo for, te desafia nas aulas, mas que ao ouvir um sermão fica como profundamente ofendido e envergonhado. Será fingimento? Tens cinco matérias na tua matrícula e terás que voltar ao colegiado no dia com o lindíssimo nome de lixão. Tens que marcar uma reunião e estagiar amanhã.
Está bem, eu sei. Mas queria agora é um banheiro ultra limpo, amplo, iluminado e com água morna numa banheira confortável e uma cama num quarto, não no banheiro, claro, para dormir quantas horas conseguisse.
Está bem, eu sei. Mas queria agora é um banheiro ultra limpo, amplo, iluminado e com água morna numa banheira confortável e uma cama num quarto, não no banheiro, claro, para dormir quantas horas conseguisse.
Justificativa
Moro longe, longe de qualquer amigo, longe de qualquer outro lugar. Na direção que queira ir, não importa qual seja, o único caminho será sempre uma estrada deserta ou um mar nem sempre calmo. Caminhar levaria horas, mas é algo que ainda pretendo fazer. Sem carro, para seguir meu rumo, só me resta o ônibus amarelo. Nele passo em média quatro horas do meu dia, duas para sair daqui, duas para voltar pra cá. Pelo tempo que moro aqui, muitas horas já se foram nesse ônibus, minhas horas de pensar, de conversar, de sonhar, de ver o mar...
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