terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ramon acabou de chegar em casa e me perguntou sobre este meu caderno de anotações, se nunca mais tinha escrito nada aqui, e lhe respondi com a dusculpa que se usa sempre para o que quer que deixemos de lado, a tal da falta de tempo.

Realmente, tempo é algo que corre bastante depois que se tem um bebê em casa, uma serzinho tão frágil, tão lindo, com o sorriso mais puro que já vi na vida e pra mim. Bom, agora a rotina já está um pouco mais calma, mas logo que João chegou aqui eram umas onze mamadas por dia, de cerca de duas horas cada uma, com trocas de fraldas quase no mesmo ritmo, o banho num bebê minusculo, roupinhas por lavar, passar... e cada uma dessas coisas cercadas por quase um ritual de cuidados mil, além de uma cicatriz inflamada que ardia como uma queimadura recém feita.

As tarefas não diminuiram em números, mas o simples fato de João dormir um pouco mais à noite, embora já não durma quase nada durante o dia, tem me dado um pouco mais de ânimo durante o dia, fora que com o passar dos dias a gente vai se acostumando, se organizando, aprendendo... Na verdade as tarefas cresceram, agora tem as vitaminas, as papinhas, as sopinhas, o passeio diário na praça, o colo, do qual, se eu permitisse, João não sairia nunca. Mas a maior dificuldade não é essa.

Levar meu filho para passear todos os dias é ótimo, vê-lo olhar atentamente pras outras crianças que brincam na praça e querer correr atrás delas. Ver as reações dele aos novos sabores que introduzo na sua dieta, como ele gosta de banho de chuveiro e detesta a banheira... Fico boba com qualquer coisinha, mas o que mais me encanta é o sorriso satisfeito e divertido que ele dá enquanto mama e como ele se atira pros meus braços. É maravilhoso, mas é também muito estressante.

Bebês choram, fazem xixi na sua roupa quando você tá pronta para sair, vomitam, choram e choram mais uma vez, por sono, fome, colo, passeio, por tudo e por nada. Bom, pra dar conta de todos os cuidados acabei me afastando de tantas coisas cuja falta anda me deixando uma pessoa bem chata. Devo dizer que em certas áreas era um afastamento inevitável, passaram a ser menos aulas na faculdade (só uma matéria), o estágio ficou de lado, os amigos e a vida social também, menos tempo pra ler, pra escrever, pro sexo (nos primeiros meses de vida de João, entre um cochilo de 15 minutos e uma "noite de prazer", eu escolhia sem pestanejar a primeira opção, e, convenhamos, eu tinha motivos contundentes)...

E foi difícil e, às vezes, ainda é, deixar tantas coisas de lado, mudar tanto e tão rápido com tão pouca maturidade e essa minha personalidade inflamada, impulsiva. Mas vale a pena, vale muito. Vale ver João sorrir, vale a família, vale estar com Ramon. Isso que o presente me dá, vale o depois pra tudo que pode esperar.