sábado, 15 de maio de 2010

Tão ruim é quando para quem se ofereceu carona o destino chega primeiro. A pessoa olha para você, agradece, mas precisa ir. E a viagem solitária recomeça cheia das lembranças que as novas paisagens trazem das passadas.

O que eu quero?

Um escrito sobre a frustração

Quero escrever. As vontades mais antigas permanecem fortes, ainda que minha covardia diga "Sobreviva!" sabendo que o prefixo não adiciona nada ao tal viver, estranhamente subtrai, compacta e reserva sonhos para depois, porque a prata garante mais comida que as sementes, mais leituras que a biblioteca pública, mais roupas que saber costurar e dizem até que mais educação que os pais podem dar. Discordo, mas com a voz abafada por tantos outros que concordam não grito, como marionete vou incoerente fazendo o que é devido.

20 anos. 1,71m. 58kg. Jovem, magra, que se saiba, saudável. Tolerável. Estudante de uma boa universidade. Quem a sustente. Mas a impressão de que sua sobrevivência segue só um modelo, um roteirinho bobo, como as cláusulas obrigatórias, básicas, de um contrato, um modelo que em nada se parece com as aventuras que ouvia lidas por vozes queridas... Ah, isso a desespera. Um desespero inerte, como um preso gradeado, algemado por algemas inventadas por um destino que adotou sem pensar. Uma escolha claramente sensata, madura, mas sufocante.

Sufoco ela sentia sempre que estava prestes a desmaiar em meio a uma multidão. Aproveitava os últimos sopros para andar até um banco, escolher alguém que lhe parecesse confiável para pedir ajuda. Porque ela sabia que, se não o fizesse, ia cair e, quem sabe, ser pisoteada até morrer. Quando está agora o momento que não chega em que precise juntar os sopros e fazer o que não pensava, o que relutava? Quando estava o evento de ruptura da Hannah Arendt em sua vida? Era saudável, mas tinha pressão baixa. Estava bem, mas tinha inquietações altas.